Quarta, 05 Agosto 2020

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Espíritas! Amai-vos, eis o primeiro ensino

Espíritas: Amai-vos, eis o primeiro ensino


Quando Allan Kardec escreveu o Livro dos Médiuns, para exercitar o discernimento dos espíritas em relação ao recebimento de mensagens dos espíritos, a título de ilustração, incluiu um capítulo intitulado Dissertações Espíritas. A mensagem IX destaca-se pelo seu caráter orientador aos seguidores do Espiritismo e, à semelhança dos ensinos evangélicos, conclama:

Espíritas: Amai-vos, eis o primeiro ensino.

Ao colocar esta atividade em primeiro lugar, o espírito orientador situa o aprimoramento do sentir no primeiro plano de nossas realizações como seres espirituais. As demais atividades, ainda que contribuintes para o progresso, estão subordinadas à elevação de nossa expressão amorosa. Este modo de organizar o nosso processo evolutivo restaura, ainda que dirigida aos grupos espíritas, o projeto de autorrealização preconizado por Jesus, ao afirmar que tudo se resume em amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Vale também lembrar que Paulo de Tarso, o apóstolo das Gentes, escreveu, em uma das suas epístolas, um poema sobre a suprema excelência do amor e afirmou que, ainda que tivesse toda a ciência, se não tivesse amor, nada disso lhe aproveitaria.

O amor na linguagem espírita

Revisitando a produção literária espírita, percebemos vários aspectos interessantes nas abordagens sobre o amor. Em Léon Denis, destacamos: A natureza de Deus é amor; a manifestação do amor evolui; o amor pode se apresentar com diferentes focos como a família, a pátria, etc.

“O amor, como comumente se entende na Terra, é um sentimento, um impulso do ser, que o leva para outro ser com o desejo de unir-se a ele. Mas, na realidade, o amor reveste-se de formas infinitas, desde as mais vulgares até as mais sublimes. Princípio da vida universal, proporciona à alma, em suas manifestações mais elevadas e puras, a intensidade da radiação, que aquece e vivifica tudo em roda de si; é por ele que ela se sente extremamente ligada ao Poder Divino, foco ardente de toda a vida, de todo o amor.

Acima de tudo, Deus é amor. Por amor criou os seres para associá-los às suas alegrias, à sua obra.

[...] O amor é uma força inexaurível, renova-se sem cessar e enriquece ao mesmo tempo aquele que dá e aquele que recebe. É pelo amor, sol das almas, que Deus mais eficazmente atua no mundo. Por ele atrai para si todos os pobres seres retardados nos antros da paixão, os Espíritos cativos na matéria; eleva-os e arrasta-os na espiral da ascensão infinita para os esplendores da luz e da liberdade.

O amor conjugal, o amor materno, o amor filial ou fraterno, o amor à Pátria, à raça, à Humanidade, são refrações, raios refratados do amor divino, que abrange, penetra todos os seres, e, difundindo-se neles, faz rebentar e desabrochar mil formas variadas, mil esplêndidas florescências de amor.

[...] de degrau em degrau, sob a influência e irradiação do amor, a alma se desenvolverá e engrandecerá, verá alargar-se o círculo de suas sensações. Lentamente, o que nela não era senão paixão, desejo carnal, ir-se-á depurando, transformando-se num sentimento nobre e desinteressado; a afeição a um só converter-se-á a todos, à família, à Pátria, à Humanidade. E a alma adquirirá a plenitude do seu desenvolvimento quando for capaz de compreender a vida celeste, que é toda amor, e a participar dela.

O amor é mais forte do que o ódio, mais poderoso do que a morte. Se o Cristo foi o maior dos missionários e dos profetas, se tanto império teve sobre os homens, foi porque trazia em si um reflexomais poderoso do Amor Divino.[...] Não foi pela Ciência nem pela arte oratória que ele seduziu e cativou as multidões; foi pelo amor!” Léon Denis emSer, Destino, Dor - Cap. O Amor

Em André Luiz, o amor gera integração, criatividade, união de qualidades e é o alimento das almas:

“Essa “união de qualidades”, entre os astros, chama-se magnetismo planetário da atração, entre as almas, denomina-se amor, entre os elementos químicos é conhecida por afinidade. A paternidade e amaternidade são tarefas sublimes; não representam, porém, os únicos serviços divinos, no setor da Criação infinita. O apóstolo, que produz no domínio da virtude, da Ciência, ou da Arte, vale-se dos mesmos princípios de troca, apenas com a diferença de planos, porque, para ele, a permuta de qualidadesse verifica em esferas superiores. [...]Quando nos referimos ao amor do Onipotente, quando sentimos sede da Divindade, nossos espíritos não procuram outra coisa senão a troca de qualidades com as esferas sublimes do Universo, sequiosos do Eterno Princípio Fecundante”. André Luiz In Missionários da Luz – 21ª edição FEB página 200.

O amor é o alimento das almas e o amor divino é o sustentáculo do universo. “Tudo se equilibra no amor infinito de Deus”. Quando Jesus falou amai-vos uns aos outros “aconselhava-nos, igualmente, a nos alimentarmos uns aos outros, no campo da fraternidade e da simpatia. O homem encarnado saberá, mais tarde, que a conversação amiga, o gesto afetuoso, a bondade recíproca, a confiança mútua, a luz da compreensão, o interesse fraternal, - patrimônios que se derivam do amor profundo – constituem sólidos alimentos para a vida em si.”André Luiz In Nosso Lar – Cap. Amor, Alimento das Almas.

Em Humberto de Campos, a essência do amor é doação:

“Pedro, o amor verdadeiro e sincero nunca espera recompensas. A renúncia é o seu ponto de apoio, como o ato de dar é a essência de sua vida. A capacidade de sentir grandes afeições já é em si mesma um tesouro. A compreensão de um amigo deve ser para nós a maior recompensa. Todavia quando a luz do entendimento tardar no espírito daqueles a quem amamos, deveremos lembrar-nos de que temos a sagrada compreensão de Deus, que nos conhece os propósitos mais puros. Ainda que todos os nossos amigos do mundo se convertessem, um dia, em nossos adversários, ou mesmo em nossos algozes, jamais nos poderiam privar da alegria infinita de lhes haver dado alguma coisa.” Humberto de Campos In Boa Nova – Cap. Amor e Renúncia.

Em Joanna de Ângelis, o amor é íntimo ao ser e não depende de recompensas.

“Mesmo que se modifiquem os quadros existenciais, que se alterem as manifestações da afetividade do ser amado, o amor permanece libertador, confiante, indestrutível.

Nunca se impõe, porque é espontâneo como a própria vida e irradia-se mimetizando, contagiando de júbilos e paz.

O amor não se apega, não sofre a falta, mas frui sempre, porque vive no íntimo dos seres, não das gratificações que o amado oferece.

O amor deve ser sempre o ponto de partida de todas as aspirações e a etapa final de todos os anelos humanos.” Joanna de Ângelis In Amor, Imbatível Amor. Cap. 1

Em ALPeixinho, encontramos a definição de tarefas para vermos a Deus através da pureza do coração.

“Para ver a Deus é preciso limpar as nascentes do sentimento, de há muito contaminadas pelos interesses e paixões, pelos prazeres egóicos, pelas sensações materializantes. E, pior ainda, deslustradas pela supremacia das emoções da revolta, da mágoa, do apego, da tristeza.

Um coração limpo conhece a inocência, experimenta a incondicionalidade dos afetos, percebe-se liberto das algemas da posse, atua com plena benevolência, caridade, tolerância.

A alma de coração puro, amor plenificado, deslumbrada, pode, então, saber por experiência direta o que significa a promessa: Limpos de coração verão a Deus.” André Luiz Peixinho In As Bem Aventuranças e outras belezas espirituais. Cap. VI

Como evoluir na manifestação do amor

A alma é uma emanação de Deus e, por isto, conserva a sua característica fundamental: o amor. Suas vidas têm por objetivo a manifestação cada vez mais grandiosa do que nela há de divino. Como sua manifestação ocorre dentro do fenômeno da evolução, ela comporta vários estágios. Inicialmente, ela desenvolve o instinto de conservação no mundo corporal como um estágio básico do amor centrado em si mesmo. Entretanto, este instinto pode ser exacerbado por livre escolha quando adentramos o reino humano e gerar percepções distorcidas da realidade de si mesmo, constituindo-se, sob a forma de orgulho e egoísmo, dois grandes obstáculos à manifestação plena do amor, considerados, espiritualmente, desde o tempo de Kardec, como chagas da humanidade.

A consciência de si mesmo restrita ao mundo material faz-nos pensar que a satisfação dos próprios desejos é natural,ainda que se procure a qualquer preço, sacrificando o interesse de outrem, tanto na ordem moral como na ordem material. Daí o surgimento de todos os antagonismos sociais, conflitos e misérias humanas, visto que o outro é considerado obstáculo à realização pessoal e ameaça ao sucesso da pessoa. Este egoísmo é um derivado do orgulho. “A supremacia da própria individualidade arrasta o homem a considerar-se acima dos demais. Julgando-se com direitos preferenciais, molesta-se por tudo o que, em seu entender, o prejudica. A importância que, por orgulho, se atribui, o torna naturalmente egoísta.” Allan Kardec In Obras Póstumas. Cap. Orgulho e Egoísmo.

Entretanto, viver desta forma não lhe dá condições defelicidade, pois, permanentemente, se sentirá ameaçado em seus bens preciosos, sejam eles materiais, afetivos, vitais ou morais. Para superar tal situação é necessário, em função de sua natureza gregária, viver em paz com os outros, o que ocorre quando as ações são animadas pelos sentimentos de benevolência, de indulgência, de caridade e de fraternidade, que resumem as condições de uma vida social ditosa centrada em um novo estágio evolutivo da manifestação do amor.

Para superar a exacerbação do instinto de conservação, de onde se derivam o orgulho e o egoísmo e, assim, evoluir na expressividade amorosa, é preciso superar as causas produtoras deste mal. “A principal é, evidentemente, a falsa ideia que faz o homem de sua natureza, do seu passado e do seu futuro. Não sabendo donde vem, julga-se mais do que é; não sabendo para onde vai, concentra todos os seus pensamentos na vida terrestre. Deseja viver o mais agradavelmente possível, procurando a realização de todas as satisfações e de todos os gozos. É por isto que investe contra o vizinho, se este lhe opõe obstáculo; então entende dever dominar, porque a igualdade daria aos outros o que ele quer só para si, a fraternidade lhe imporia sacrifícios em detrimento do próprio bem-estar[...] Identifique-se o homem com a vida futura e sua perspectiva mudará inteiramente[...] A importância da presente vida, tão triste, tão curta, tão efêmera, desaparece diante do esplendor da vida futura infinita que se abre à frente.” Allan Kardec In Obras Póstumas. Cap. Egoísmo e Orgulho

Crer na vida futura é um antídoto contra o orgulho. Acresce-se ainda um outro remédio: a percepção do passado que, anterior à gestação, remonta à origem dos seres materiais. Assim o orgulho se desvanecerá, pois não há superioridade original, já que todos somos derivados do mesmo princípio inteligente do Universo e iniciamos nossa ascese na simplicidade e na ignorância; e as diferenças evolutivas, explicadas pelo melhor aproveitamento das reencarnações, tornam o mais evoluído responsável pelo cuidado aos menos evoluídos. Assim, o conhecimento da vida espiritual em seu ciclo palingenésico e evolutivo remodela as crenças pessoais e transforma o egoísmo em altruísmo, o orgulho em humildade, o que torna factível exercer a fraternidade universal, o amor em plena expansão.

Exercícios para evolução da amorosidade

A informação sobre a vida do espírito, embora seja condição necessária, não é suficiente para provocarevolução e expansão da amorosidade. É preciso que tais saberes sejam vividos para se tornarem verdades factuais. Para tanto, podemos, como aprendizagem, lançar mão de alguns exercícios práticos:

A introspecção - O conhecimento do nosso vasto mundo interior nos levará a identificar nas profundezas nosso vínculo com a Grande Alma Universal - O Puro Amor -Deus, do qual somos uma centelha, uma vibração. Da percepção deste vínculo virá a superação da consciência atual de separatividade, tanto dos outros como de nosso Criador. Essa prática nos permitirá descobrir que “sob a superfície do “eu”, agitada pelos desejos, esperanças e temores, está o santuário que encerra a consciência integral, calma, pacífica, serena, o princípio da sabedoria e da razão.” Este exercício “consiste em insular-se uma pessoa em certas horas do dia ou da noite, suspender a atividade dos sentidos externos, afastar de si as imagens e ruídos da vida externa, o que é possível fazer mesmo nas condições sociais mais humildes, no meio das ocupações mais vulgares. É necessário para isto concentrar-se e na calma e recolhimento do pensamento, fazer um esforço mental para ver e ler no grande livro misterioso o que há em nós.” Léon Denis. O Problema do ser do Destino e da Dor. Cap. XXI.

Este exercício, progressivamente, permitirá ao serdesidentificar-se de tudo que é passageiro, material, terrestre. Isto inclui sensações, emoções, pensamentos, valores, crenças, manifestações parciais e transitórias da Perfeição. Então alcançaremos, na nossa percepção ampliada da consciência, um lugar sagrado, um lugar de amor, e identificaremos nossa real natureza: divina, amorosa, unificada com todos os seres.

Comunhão com seres espirituais elevados – Um segundo exercício para expandir e qualificar a manifestação amorosa consiste em estabelecer contato com as mais altas esferas espirituais. E o meio mais eficaz é a prece. Ela, neste caso, “é uma elevação da alma acima de todas as coisas terrestres, um ardente apelo às potências superiores, um impulso, um vôo para as regiões que não são perturbadas pelos murmúrios, pelas agitações do mundo material e onde o ser bebe as inspirações que lhe são necessárias. Quanto maior for o seu alcance, tanto mais sincero é o seu apelo, tanto mais distintas e esclarecidas se revelam as harmonias, as vozes, as belezas dos mundos superiores. É como que uma janela que se abre para o Invisível, para o Infinito. [...] A linguagem da prece deve variar segundo as necessidades, segundo o estado de espírito humano. É um grito, um lamento, uma efusão, um cântico de amor, um manifesto de oração ou um exame dos seus atos, um inventário moral que se faz sob a s vistas de Deus, ou ainda um simples pensamento, uma lembrança, um olhar erguido para o céu.” Léon Denis – Ser, Destino, Dor. Cap. A Prece

Importante nestes instantes de oração é constatar que a alma desenvolve um sentido íntimo mais acurado para as realidades espirituais mais elevadas, onde o amor encontra possibilidades expressivas tão sublimes que superam toda dor, toda limitação, todo medo, toda separatividade e faz aparecer a unidade fundamental do Cosmos, entrelaçando todos os seres numa grande corrente evolutiva.

A contemplação – Outro exercício para amplificar a manifestação do amor é a contemplação da natureza. Ela pressupõe uma suspensão do pensamento lógico e a utilização de um sentido de conhecimento estético e espiritual. À medida que ultrapassamos as impressões imediatas e superficiais do sensório, adentramos no reino dos segredos cósmicos com sua lei de harmonia, sua estesia, seus propósitos, seus significados evolutivos, até alcançarmos sua Causa e apreendermos, sem palavras e pensamentos, a unidade fundamental de todos os seres e seus dinamismos evolutivos singulares. Então perceberemos que em nós se infundiu misteriosamente o sentido augusto e divino da obra universal. Uma boa sugestão nos dá Léon Denis:

“Nas horas de hesitação, volta-te para a Natureza: é a grande inspiradora, o templo augusto em que, sob véus misteriosos, o Deus escolhido fala ao coração do prudente, ao Espírito do pensador. Contempla! Por toda a parte, obras belas e potentes solicitam tua atenção.

Assim, todas as estrelas nos cantam seu poema de vida e amor, todas nos fazem ouvir uma evocação poderosa do passado ou do futuro. Elas são as moradas do nosso Pai, os estádios, os marcos soberbos do Infinito...

Escuta as harmonias da Natureza, os ruídos misteriosos das florestas, os ecos dos montes e dos vales, o hino que a torrente murmura no silêncio da noite.

A montanha é uma bíblia, cujas páginas apresentam um sentido oculto, um sentido profundo. Em suas camadas rochosas, enrugadas, revolvidas pelos abalos plutônicos, podeis ler a gênese do globo, as grandes epopeias da história do mundo. Ela possui um princípio regenerador, que dá a calma aos nervos...

Escuta a grande voz do mar! É uma melopeia quese eleva, grave, contínua, semelhante a uma salmodia, uma encantação. Igual a todas as harmonias da natureza, fala da Causa suprema, da obra imensa e divina. Lembra-nos quanto o homem é pequeno por sua forma material diante da majestade das águas e do céu: quanto é grande por sua alma, que pode abarcar todas as coisas, saborear-lhes as belezas, desenvolver os seus ensinamentos.

A natureza age sobre a nossa vida psíquica, nossos sentimentos e pensamentos, e por esta comunhão íntima, a dualidade da matéria e do espírito, cessa um instante na unidade que tudo gerou.” Léon Denis In O Grande Enigma. Parte O Livro da Natureza.

Este mesmo sentimento de unidade pode ser encontrado nas experiências de contemplação entre os seres humanos, nas vivências transpessoais de almas afins e na relação contemplativa de mãe e filho recém-nascido.

Imaginação ativa ou Visualização criativa – O quarto exercício de aprimoramento da amorosidade pode ser chamado de construção ideoplástica do nosso futuro ou vir a ser evolutivo. Para compreendê-lo, precisamos lembrar que a “alma contém, no estado virtual, todos os germens dos seus desenvolvimentos futuros. Criada por amor, criada para amar, pouco a pouco se eleva e, conforme vai subindo, nela vai se acumulando uma soma sempre crescente de saber e virtude; sente-se mais estreitamente ligada a seus semelhantes; comunica mais intimamente com seu meio social e planetário. Elevando-se cada vez mais, não tarda a ligar-se por laços pujantes às sociedades do Espaço e depois ao Ser Universal.” Léon Denis. O Problema do Ser do Destino e da Dor. Cap. IX.

Também devemos estar conscientes de que a vontade é a potência da alma capaz de gerar novos estágios evolutivos. Lembra-nos ainda Léon Denis: “O querer é poder! Dirigi incessantemente vosso pensamento para esta verdade: que podeis vir a ser o que quiserdes. E sabei querer ser cada vez mais e melhores. Tal é a noção do progresso eterno e o meio de realizá-lo; tal é o segredo da força mental, da qual dimanam todas as forças magnéticas e físicas”. Léon Denis. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Cap. XX

Para sabermos o alvo que queremos alcançar, com a certeza de que esse é nosso futuro evolutivo, lembremo-nos que há em nós uma zona psíquica superconsciente que pode ser percebida pela intuição, pelas aspirações. Ela pode ser acessada através da renúncia, da oração e da meditação. Mais pragmaticamente, poderemos, na consciência normal, escolher comportamentos que sabemos, através da cultura universal, que são próprios de seres mais evoluídos; ou ainda escolher alguém que nos sirva de exemplar evolutivo, modelo e guia, e nos perguntarmos como ele agiria nas circunstâncias relacionais que vivemos.

Uma vez definido nosso escopo, utilizamo-nos da imaginação e da vontade firme para visualizar a nós mesmos, experienciando comportar-se de acordo com as qualidades desejadas. Entre elas, podem estar a benevolência, a aceitação das diferenças, a responsabilidade e o respeito para com os outros etc. Pelo fenômeno da ideoplastia ou construção de formas pensamento no mundo espiritual, iremos elaborando ambientes psíquicos que tornam mais provável nosso agir em consonância com as aspirações evolutivas. E, quando dirigimos nossa vontade para aprimorarmos alguma relação afetiva específica, estaremos manipulando energias ou fluidos que favorecerão a consecução de nosso objetivo. Aos poucos iremos incorporando as qualidades desejadas ao acervo de nossas conquistas como espíritos imortais.

Ação expansora do amor - Este exercício permite, inicialmente, que conheçamos quais são os nossos limites em matéria de expressão amorosa, limites estes condicionados pelo grau de egoísmo e orgulho em que vivemos. Assim, numa observação direta dos nossos comportamentos e nossos sentimentos, podemos identificar até que ponto somos altruístas ou fazemos o que gostaríamos que nos fizessem. Logo reconheceremos a quem conseguimos realmente amar, sentindo alegria e inteireza em sua presença, a quem somos indiferentes, a quem reagimos negativamente pela mágoa, pelo ressentimento, pelo desprezo. A partir deste reconhecimento, programamos ações que consideramos passos evolutivos envolvendo as pessoas que estão distantes em matéria de despertar nosso afeto e produzir bem-estar quando em convivência. Ao executá-las,lembramos que as ditas ações são parte de um projeto pessoal de evolução e que o outro, independente do que nos desperta, é uma centelha divina e, como tal, será um dia percebido por nós. Simultaneamente, observamos como sentimos esse agir, verificando progressivamente a transformação que se opera em nossos sentimentos, que se elevam à medida que repetimos as ações. Assim, iremos superando nossas resistências interiores a qualquer ser,incluindo-os em nosso círculo de ações altruístas edissolvendo as barreiras afetivas que nos separam. Neste exercício, poderemos sentir a libertação que o perdão proporciona e o engrandecimento que alcançamos pela superação da indiferença.

A vivência do sagrado ou a devoção ao divino – Para coroar os nossos exercícios, está a prática da meditação em busca do sagrado ou da experiência transcendental e numinosa. Este tipo de exercício deve ser realizado com todo o ímpeto, pois poderá nos conduzir à culminância da realização do espírito no contexto da vida afetiva. Ensina-nos um ente espiritual que tal prática começa pela construção do hábito de conversar com Deus em meio às realizações materiais. “Ao cuidar de negócios, pense na presença de Deus; ao falar com outrem, tenha a Deus como sua testemunha: quando formular planos, mantenhaDeus como seu orientador; em tudo o que pense, sinta em Deus a fonte de toda a energia. Leve Deus para dentro de sua vida, de modo que, ao pensar, falar, agir, seja a presença divina a sua permanente companhia.”Yogashririshinam. In Divina Presença. Cap. Meditação

Essa atitude devocional evitará o escolho inicial dos exercícios de meditação, pois, quando tentamos realizá-los em momentos isolados, a mente descarrega todos os problemas, dificuldades, lembranças, desejos, opiniões,transformando a prática em uma luta contínua para conservar o pensamento em Deus. Esta é uma tarefa inglória que pode levar o praticante à desistência. Se seguirmos a orientação anterior, progressivamente, pelo uso da vontade, iremos colocar Deus em nossas vivências. Em breve tempo poderemos escolher uma hora para pensarmos em Deus ou sentirmos sua presença e, mesmo que as memórias dos eventos diários nos ocorram, elas virão impregnadas da presença de Deus.

Então sobrevirá a percepção de que Deus está em toda a parte e seu templo é o Universo. Ora, todos os seres estarão incluídos nesta percepção e a chama do amor a Deus que cresce progressivamente dentro do praticante atodos envolverá.

Um indicador de sucesso - O desapego

Podemos verificar se estamos evolvendo na senda do amor, observando o estágio de desapego que vivenciamos. Toda retenção é filha do egoísmo. Ninguém se realiza se está prisioneiro de desejos. E eles podem nos fazer proprietários de posses materiais, afetivas e até mesmo espirituais. E, para saber como estamos, basta que verifiquemos o que nos pode causar o sentimento de perda ao desaparecer do nosso universo de vivências. O ser evoluído vive expressões de amor sem exigências, sem necessidade de reconhecimento, sem aguardar reciprocidades; também coloca-se na posição de gestor dos bens divinos, sempre reconhecendo que a riqueza pertence a Deus e toda apropriação, fazendo-se passar por dono, é indébita e motivo de sofrimento.

A relevância do amor na vida institucional

Em discurso aos espíritas de Lyon, Kardec enunciou:

“A caridade é a base, a pedra angular de todo edifício social. Sem ela o homem construirá sobre a areia. Um exemplo torna isso compreensível.

Alguns homens bem intencionados, tocados pelos sofrimentos de uma parte de seus semelhantes, supuseram encontrar o remédio para o mal em certas doutrinas de reforma social. Com pequenas diferenças, os princípios são pouco mais ou menos os mesmos em todas essas concepções, qualquer que seja o nome que se lhe dê. Vida comunitária, por ser a menos onerosa; comunidade de bens para que todos tenham a sua parte; nada de riqueza, mas também nada de miséria. Tudo isso é muito sedutor para aquele que, não tendo nada, vê, antecipadamente, a bolsa do rico passar ao fundo comunal[...] A vida comunitária é a abnegação mais completa da personalidade. Ora, o móvel da abnegação e do devotamento é a Caridade, isto é, o amor ao próximo. Entretanto é preciso reconhecer que a base da caridade é a crença; que a falta de crença (na imortalidade e origem divina do ser como espírito) conduz ao materialismo, e este, ao egoísmo. Um sistema que, por sua natureza,requer, para sua estabilidade, virtudes morais no mais supremo grau, haveria que ter seu ponto de partida no elemento espiritual. [...] Antes de fazer a coisa para os homens, é preciso formar os homens para a coisa, como se formam obreiros antes de lhes confiar um trabalho.

Aplicai-vos, pois, a desenvolver sentimentos que, em se afirmando, destruirão o egoísmo que vos destrói. Quando a caridade tiver penetrado as massas, quando se tiver transformado na fé, na religião da maioria, então vossas instituições se tornarão melhores pela força mesma das coisas. [...] Ensinai, pois, a caridade e, sobretudo, pregai pelo exemplo.” Allan Kardec In Viagem Espírita em 1862. Cap. III

Vale ressaltar que, para Kardec, a caridade, como expressão de amor, é o sentimento de benevolência, de justiça e de indulgência relativamente ao próximo, baseado no que queríamos que o próximo nos fizesse.

E prossegue Kardec em Lyon:

“Seja-vos possível fundir-vos em uma única e mesma família e dar-vos mutuamente do fundo do coração e sem pensamento premeditado o nome de irmãos. Se entre vós há dissidências, causas de antagonismos [...] eu o lamento[...] e me coloco, sem hesitar, do lado daquele que tiver mais caridade, isto é, mais abnegação e verdadeira humildade.” Allan Kardec In Viagem Espírita em 1862. Cap. II

Como exercitar este amor no Centro Espírita.

Miguel Vives, um dos mais lúcidos e amorosos espíritas da Espanha, escreveu um livro intitulado O Tesouro dos Espíritas e elucidou:

“Todo espírita deve portar-se com a maior humildade possível, perante os seus irmãos. Porque a humildade é sempre um exemplo de boas maneiras, jamais nos compromete, nem é causa de distúrbios e de rixas.

Da mesma maneira que, para realizar uma empresa, um negócio, adquirir algum objeto que nos agrada, fazemos àsvezes sacrifícios e trabalhos, e os conseguimos, o espírita não deve olvidar que não há empresa maior, nem trabalho mais nobre do que atrair o amor leal e sincero de seus irmãos. Não há nada na Terra tão proveitoso como fazer-se uma criatura de paz, de amor e de concórdia. Quem assim age, torna-se uma garantia para a tranquilidade e o progresso de seus irmãos e constitui uma base para toda a propaganda proveitosa e eficaz do Espiritismo.

[...] todo espírita deve ser caridoso com seu irmão. [...]Assim, pois, o espírita não deve abandonar o seu irmão numa crise, deve ser para com ele como um pai ou uma mãe, consolando-o em suas aflições, assistindo-o em suas necessidades, protegendo-o na velhice, dando-lhe a mão na mocidade. Numa palavra: o espírita deve ser, para o seu irmão, a verdadeira providência, sustentando-o em tudo o que puder, em todos os transes da vida planetária.

Eis a maneira de dar bom exemplo à Humanidade, que se apresenta tão cheia de males e egoísmos. Eis a maneira de tornar mais leve a cruz que, por lei, temos de carregar neste mundo. Porque o amor é seiva divina, é o bem e a paz. Eis, pois, a maneira de atrair a atenção da Humanidade e demonstrar-lhe que a palavra irmão não é apenas uma fórmula, mas a expressão do amor que sentimos. Eis a maneira de constituir uma família que nos livraria de muitas amarguras que hoje nos oprimem, e que nos daria muitos dias de paz e alegria. Reinaria em nossas reuniões tanta cordialidade e tanto amor, que nela os nossos espíritos se regenerariam.

Os que exercem mais influências num Centro Espírita são os que devem viver mais alerta, os que mais necessitam observar as regras prescritas (pela atitude de amor),porque são encarregados de vigiar e conduzir os de menos alcance e menos compreensão. Aqueles que, por seu entendimento, podem compreender melhor e se convertem em guias de seus irmãos, não mais se pertencem a si mesmos, passam a ser exemplos para os seus irmãos.” Miguel Vives. In Tesouro dos Espíritas. Cap.3

Constituindo a comunidade do amor no Centro Espírita​

Objetivando maior êxito das ideias apresentadas por Miguel Vives para a convivência entre os espíritas de uma instituição, vale recordar, com Kardec, que as associações para manterem-se precisam de unidade de vistas, de princípios e de sentimentos, comunhão de pensamentos. Por isto, consideramos relevante reunir pessoas afins em grupos de autoeducação, em média com vinteparticipantes, assegurando a homogeneidade de interesses, propósitos e uma abertura para a partilha de vivências evolutivas. Estes grupos poderão ser multiplicados ad infinitum nas entidades de grande número de frequentadores, preservando o caráter familiar, fraternal, intimista e coloquial na instituição. Tais pessoas se apoiarão mutuamente, propondo-se a ser um só pensamento e um só coração. Mais adiante, será necessáriaa formação de um grupo de autoconhecimento evolutivo,composto com líderes de grupos de autoeducação, de modo a manter a unidade nos trabalhos da instituição e permitir avanços significativos nas práticas evolutivas através de vivências criativas. Assim, pode-se constituir um espaço-tempo institucional para a vivência em comunidade, entrelaçando-se hábitos e relações fraternais.

Como base na experiência, podemos citar alguns pontos facilitadores do êxito deste tipo de empreendimento:

• O compromisso de expor suas vivências evolutivas perante o grupo em linguagem proativa apreciadora, portanto, sem julgamento, utilizando-se do pronome na primeira pessoa.
• O interesse na escuta qualificada dos relatos dos outros, mantendo a mesma conduta de apreciação sem julgamento.
• O cumprimento de tarefas entre as reuniões, tais como leituras combinadas, preces e vibrações de apoio, experiências oníricas coletivas.
• A manutenção do sigilo sobre as ocorrências durante a reunião.
• A adoção de um texto espírita norteador dos exercícios de autoeducação no cotidiano viver.
Com o tempo, poderão surgir atitudes de ajuda mútua no plano das realizações humanas, envolvendo resolução de problemas de saúde, de finanças etc., sempre como expressão do afeto e condicionada à livre decisão dosparticipantes. Além disso, esses grupos poderão se tornar os responsáveis pela sustentabilidade material da instituição como parte da sua aprendizagem evolutiva.
Espíritas! Amai-vos, eis o primeiro ensino


O Federativismo como ampliação do exercício do Amai-vos

Se integrar uma equipe de trabalhadores de uma instituição espírita ainda exige amadurecimento espiritual, mais ampla deve ser a maturidade de quem se dispõe a atuar num Centro Espírita e colaborar com a união dos grupos espíritas de uma cidade, uma região, um estado ou um país. Este é um desafio evolutivo necessário para a constituição de uma comunidade espiritual abrangente indo além das vivências de uma instituição. Como alerta, oespírito Bezerra de Menezes:

“A união dos espíritas é ação que não pode ser postergada, e a unificação é o laço de segurança dessa união.

Em união, somos felizes. Em unificação, estamos garantindo a preservação do Movimento Espírita ante os desafios do futuro.

Em união, marcharemos ajudando-nos reciprocamente. Em unificação, estaremos ampliando os horizontes da divulgação doutrinária em bases corretas e equilibradas.

Com união, demonstraremos a nós mesmos que é possível amar sem exigir nada. Com unificação,colocaremos as ideias pessoais em plano secundário objetivando a coletividade.” Bezerra de Menezes In Aos Espíritas. Cap. 5

A união dos espíritas para unificação do movimento espírita tem sido um desafio histórico. Na Bahia se concentrou, inicialmente, nas reuniões de peregrinação que José Petitinga realizou visitando as casas espíritas da época, em 1915, que resultou na fundação de uma entidade agregadora de todos os centros, então denominada União Espírita Bahiana, convertida, posteriormente, em Federação Espírita do Estado da Bahia.

Essa união dos espíritas e unificação do movimento espírita deve ser nosso contributo à revivescência do Evangelho no que tange à experiência comunitária dos primeiros convertidos que se uniram após a despedida de Jesus e, solidários, formaram grupos de convivência que eram um só pensamento e um só coração, e tinham tudo em comum, fazendo juntos as orações e cuidando dos necessitados.

Com tantas possibilidades na ação federativa, exercitando o Amai-vos como primeiro ensino, lembremo-nos ainda do apelo espiritual:

“Trabalhemos, então, unificados, amando-nos cada vez mais, para logramos alcançar o momento de plenitude com que o Amigo incomparável de todos nós, (Jesus) nos acena desde agora” Bezerra de Menezes In Aos Espíritas

 

Federação Espírita do Estado da Bahia

Rua Coronel Jayme Rolemberg, 110 Bela Vista de Brotas CEP 40279-140 Salvador-BA

Telefone (71) 3359-3323

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